Finados, Halloween, Saci, Antropofagia

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A proximidade do dia de finados faz-nos pensar na morte. A compreensão do sentido da vida, e da morte, essas duas perfeitas irmãs, sempre acompanhou os homens, sempre escorou a filosofia, a arte e mesmo as gentes simples, esse intrigamento existencial. No entrecruzamento entre o paganismo e o cristianismo, ações e reações têm-se agastado e têm resultado na invenção de algumas tradições, tradições mais remotas e tradições recentes, por mais que isso pareça paradoxal.

Uma dessas tradições recém-inventadas na nossa cultura brasileira é a comemoração do halloween, festa transposta para uma certa parcela da população mais ou menos em torno, primeiramente, das escolas de inglês, que, talvez acriticamente, precisam recriar ambientes culturais do outro. O halloween seria uma forma de outrar-se?

No meio do caminho das culturas vivas, o deixar-se influenciar é saudável, se, antropofagicamente, digerimos as informações culturais do outro para fortalecer nossa identidade, para abrirmo-nos a um acréscimo, para ganharmos um respiro de um jeito de ser mais amplo, e isso coletivamente.

Como uma espécie de reação (nacionalista), parte de um móbile dialético, temos visto crescer na nossa região a festejação do saci. Se consideramos o saci como ente pertencente ao folclore, e se o folclore é um valor de vida, algo vivo e dinâmico (portanto mutável) em nossa lógica e razão de vida, estamos falando mesmo de folclore. Se ele não tem essa força viva, fazemos folclorização, fazemos uma celebração daquilo que não mais vive, celebração da morte, portanto. Aqui, é sugestivo pensar também nas malfadas festas juninas.

A metáfora da digestão cultural que a antropofagia metaboliza pode, talvez, nos ensinar alguma coisa neste momento e as questões que aqui trazemos para reflexão são: halloweens e sacis estão a serviço de quê? halloweens e sacis nos poetizam? compõem a alma de nosso jeito de ser? alimentam possíveis novas formas de ser? nos reinterpretamos a partir deles? ou são apenas mais dois itens banais e descartáveis da cultura moderna? mais uma efeméride que o capitalismo explora e as religiões recalcitram?

Prof. Me. Luzimar Goulart Gouvêa é coordenador do Grupo de Estudos de Língua Portuguesa (GELP) da UNITAU.